a música e a evocação do ser amado



E quando então, ao longe, lá embaixo, alguém sonha uma canção ao som de sua mandolina, não se pensa em atribuí-la a um ser humano; sente-se que ela emana diretamente desta paisagem vasta, que não pode mais calar-se diante de sua nostálgica e estranha felicidade. O instrumento canta como uma mulher solitária que em noite profunda evoca o nome de seu amante longínquo, procurando concentrar nesta palavra pobre todo o seu carinho, o seu ardor e todos os tesouros do seu mais íntimo ser.




Rainer Maria Rilke

O diário de Florença


e o novo aponta em uma vida



os antigos amigos passavam a companheiros que se haviam atrasado no caminho, e ele não se sentia mais, em sua escola e em sua cidade, no meio de semelhantes e no lugar adequado, porém isso se embebera de uma morte furtiva, de um fluído de irrealidade, um odor de coisa parada, tornara-se uma situação provisória, um traje usado que já não combinava com nada mais. E essa emancipação de uma pátria até então harmônica e amada, esse despojar-se de uma forma de vida que não mais lhe pertencia, e lhe era inadequada, essa vida de alguém que se despede, que recebeu um apelo exterior, com horas de extrema ventura e de radiante consciência de si próprio, resultou em um enorme suplício, uma opressão e um sofrimento quase insuportáveis; ele sentia que tudo o abandonava, sem ter a certeza de de que fosse ele mesmo quem tudo abandonava, talvez o próprio culpado desse falecer, desse alheamento a seu amado mundo habitual, por sua ambição, sua presunção e orgulho, por sua infelicidade e falta de amor. Entre as dores que acompanham um verdadeiro apelo, estas são as mais amargas. Quem recebe o apelo da vocação não só recebe um dom e uma ordem, mas também torna-se culpado, assim como o soldado, chamado entre as fileiras de seus camaradas para ser elevado a oficial, tanto mais merece essa elevação quanto mais a paga com um sentimento de culpa ou mesmo de má consciência.



Herman Hesse

O jogo das contas de vidro


um amante equivocado



Sempre amei Paulina. Numa das minhas primeiras lembranças, Paulina e eu estamos ocultos numa obscura pracinha cercada de loureiros, num jardim com dois leões de pedra. Paulina me disse: "Gosto do azul, gosto das uvas, gosto do gelo, gosto das rosas, gosto dos cavalos brancos". Compreendi que minha felicidade havia começado, porque nessas preferências podia me identificar com Paulina. Nós nos parecíamos tão milagrosamente que, num livro sobre a reunião final das almas na alma do mundo, minha amiga escreveu na margem: As nossas já se reuniram."Nossas", naquele tempo, significava a minha e a dela.

Para explicar a mim mesmo essa semelhança, argumentei que eu era um apressando e remoto rascunho de Paulina. Recordo que anotei em meu caderno: Todo poema é um rascunho da Poesia e em cada coisa há uma prefiguração de Deus. Pensei também: "Enquanto me parecer com Paulina estarei a salvo". Via (e ainda vejo hoje) a identificação com Paulina como a melhor possibilidade do meu ser, como o refúgio onde eu me livraria de meus defeitos naturais, da torpeza, da negligência, da futilidade.



Adolfo Bioy Casares

Em Memória de Paulina, em Histórias Fantásticas


do prazer



o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro.



André Gorz

Carta a D


da ferocidade do viver



é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comêssemos gente com seu sangue. Nossa vida é truculenta, Loreley: nasce-se com sangue e com sangue corta-se para sempre a possibilidade de união perfeita: o cordão umbilical. E muitos são os que morrem com sangue derramado por dentro ou por fora. É preciso acreditar no sangue como parte importante da vida. A truculência é amor também.



Clarice Lispector

Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres


ausência



Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade


do conhecimento trocado



Conto ao senhor é o que sei e o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba.



João Guimarães Rosa

Grande Sertão: Veredas