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da adaptação



_ Não é que eu queira parar de escrever - disse Sumire. Ela refletiu por um momento. - É só que, quando tento escrever, não consigo. Sento-me à mesa e não me vem nada: nenhuma idéia, nenhuma palavra, nenhuma cena. Zero. Não muito tempo, eu tinha milhões de coisas sobre o que escrever. O que está acontecendo comigo?

_ Está me preguntando?

Sumire assentiu com um movimento da cabeça.
Bebi um gole do meu chope gelado e organizei os pensamentos.

_ Neste instante, acho que está se posicionando numa nova estrutura ficcional. Está preocupada com isso, portanto não há necessidade de colocar seu sentimentos na escrita. Além disso, anda preocupada demais.

_ Você faz isso? Você se põe dentro de uma estrutura ficcional?

_ Acho que a maior parte das pessoas vive em uma ficção. Eu não sou uma excessão. Pense nisso em termos da engrenagem de um carro. É como um câmbio entre você e a realidade austera da vida. Pega a força de fora, em estado natural, e usa a as marchas para ajustá-la de modo que fique tudo bem sincronizado. É assim que mantém seu corpo frágil intacto. Isso faz algum sentido?


Haruki Murakami

Minhas querida Sputinik

da consciência



[...] Hoshino se lembrou da própria infância. Dos tempos em que ia diariamente pegar peixes num ribeirão próximo à sua casa. Bons tempos aqueles em que não tivera de pensar em nada. Só tivera de viver a vida como ela era. Vivendo, era alguma coisa. De maneira natural. Mas deixou de ser assim a partir de um certo tempo que não consigo definir com exatidão. Viver, apenas, passara a não significar que eu não era alguma coisa. Que história mais maluca, não é mesmo? Afinal, as pessoas nascem para viver, certo? Em vez disso, parece até que quanto mais eu vivia, mais perdia o conteúdo, isto é, me transformava num homem vazio por dentro. E pode ser que daqui para a frente, quanto mais eu viver mais vazio e insignificante eu me torne. Mas isso está errado. Não tem pé nem cabeça. Será que posso mudar o rumo dos acontecimentos?




Haruki Murakami

Kafka à beira-mar


sobre o batismo de sangue necessário



-Talvez esteja me faltando alguma coisa. Alguma coisa que necessariamente se deve ter para ser um romancista.

Seguiu-se um longo silêncio. Parecia que estava pedindo a minha humilde opinião.

Depois de algum tempo, comecei a falar.

- Muito tempo atrás, na China havia cidades circundadas por muros altos, com portões enormes, suntuosos. Os portões não eram apenas portas que permitiam a entrada e saída de pessoas. Eles tinham uma grande importância. As pessoas acreditavam que a alma da cidade residia nos portões. Ou que, pelo menos deveria ali residir. Como na Europa, na Idade Média, quando as pessoas achavam que o coração da cidade ficava em sua catedral e na praça central. Por isso, até hoje, na China, há uma porção de portões maravilhosos ainda de pé. Sabe como construiram esses portões?

- Não faço a menor idéia - respondeu Sumire.

- As pessoas levavam carretas aos campos e coletavam ossos descorados que haviam sido enterrados ou que se espalhavam por ali. A China é uma bonita região, um monte de antigos campos de batalha, por isso nunca precisaram buscar muito longe. Na entrada da cidade, construíram um portão imenso e o vedadam com os ossos dentro. Esperavam que, homenageando-os dessa maneira, os soldados mortos continuariam a proteger a sua cidade. E tem mais. Quando o portão era concluído, levavam vários cachorros, cortavam suas gargantas e borrifavam o portão com seu sangue. Somente misturando sangue fresco com ossos exangues, a alma antiga dos mortos reviveria magicamente. Pelo menos essa era a idéia.

Sumire esperou em silêncio que eu prosseguisse.

- Escrever romances é a mesma coisa. Juntam-se os ossos, faz-se o portão, porém não importa o quão maravilhoso se torne, só isso não torna o romance vivo, que respira. Uma história não é algo deste mundo. Uma verdadeira história requer uma espécie de batismo mágico para ligar o mundo deste lado ao mundo do outro lado.

- O que está dizendo é que eu preciso partir sozinha e encontrar meu próprio cachorro?

Concordei com um movimento de cabeça.

- E derramar sangue fresco?

Sumire mordeu o lábio e refletiu. Lançou outra pedra impotente no lago.

- Eu realmente não quero matar um animal, se puder evitá-lo.

- É uma metáfora - disse eu. - Não precisa matar de verdade coisa nenhuma.



Haruki Murakami

Minha querida Sputnik


conheça-te a ti mesmo



Acho difícil falar sobre mim mesmo. Sempre tropeço no eterno paradoxo quem sou eu? Claro, ninguém conhece tantos dados sobre mim quanto eu. Mas quando falo de mim mesmo, todo tipo de outros fatores - valores, padrões, minhas próprias limitações enquanto observador - faz de mim, o narrador, selecionar e eliminar coisas sobre mim, o narrado. Sempre me perturbou o pensamento de que não estou pintando um quadro muito objetivo de mim mesmo.

Este tipo de coisa não parece incomodar a maior parte das pessoas. Tendo oportunidade, mostram-se surpreendentemente francas quando falam de si mesmas. "Sou franco e aberto em um nível absurdo", dirão, ou "Sou muito suscetível, não sou do tipo que se move no mundo com facilidade". Ou "Sou bom em sentir o verdadeiro sentimento dos outros". Porém, muitas vezes, vi pessoas que dizem se magoar facilmente magoarem o outro sem uma razão aparente. Gente que se diz franca e aberta, sem se dar conta do que está fazendo, usa descuidadamente alguma desculpa oportunista para conseguir o que quer. E aqueles "bons em sentirem os verdadeiros sentimentos dos outros" são enganados pela bajulação mais aparente. É o bastante para me fazer perguntar: O quanto realmente nos conhecemos?




Haruki Murakami

Minha querida sputnik


das contradições humanas



– Pode ser? – repete Oshima, agastado. – Meu jovem, pode ser que a grande maioria das pessoas existentes no mundo não esteja em busca de liberdade. As pessoas apenas pensam que estão. Tudo é ilusório. Caso a liberdade lhes fosse realmente concedida, a maioria se veria num mato sem cachorro. Lembre-se sempre disso. Na verdade, as pessoas gostam de se sentir presas, entendeu?



Hakuri Murakami

Kafka à beira mar


dos registros importantes



– Todos nós perdemos coisas preciosas ao longo da vida – diz ele quando o telefone enfim pára de tocar. – Oportunidades ou possibilidades importantes, emoções que nunca mais experimentamos. Esse é um dos significados da vida. Mas dentro de nossas mentes – eu ao menos acho que é dentro das nossas mentes – existe um pequeno aposento destinado a guardar tais preciosidades na forma de lembranças. Deve ser um aposento semelhante àquele em que guardamos o acervo desta biblioteca. E para sabermos a exata situação de nossa alma, temos de fabricar continuamente novos cartões de referência. Temos de varrer o aposento, de arejá-lo, de trocar a água doa vasos de flores. Em outras palavras, você vai viver para sempre dentro de sua própria biblioteca.



Hakuri Murakami

Kafka à beira mar


a quenga II



Depois, a rapariga levou Hoshino para a cama e com as pontas dos dedos e da língua acariciou-lhe carinhosamente o corpo, logo conseguindo nova ereção. Firme e rígida, levemente inclinada para a frente como Torrer de Pisa em desfile carnavalesco.

- Viu? você já está pronto para outra sessão – disse ela. Em seguida, dedicou-se a mais uma série de movimentos. – Tem algum pedido especial a fazer? Um pedido do tipo “gostaria de fazer assim, ou assado”? O Coronel Saunders me disse para lhe dar tratamento especial.
- Bem, assim de repente não me ocorre nenhum pedido especial, mas que acha de citar mais alguma coisa do tipo filosófico? Não entendo nada, mas talvez sirva para retardar a ejaculação. Do jeito que vai, não vou conseguir segurar por muito tempo...
- Vejamos então... É um tanto antigo, mas o que acha de Hegel?
- Serve, serve. O que você quiser.
- Pois recomendo Hegel. Antiquado, mas... Tá-rá!, aqui vai um dos oldies but goodies!
- Ótimo.
- “O eu é o conteúdo da relação e a relação mesma”.
- Ahn...!
- Hegel estabeleceu a chamada “consciência-de-si” e diz que o sujeito humano não só tem conhecimento de si mesmo e do objeto separadamente, como também melhor se compreende pela projeção de si sobre o objeto como mediador. Isto é “consciência-de-si”.
- Não entendi nada.
- Em outras palavras, é o que estou fazendo com você neste momento. Para mim, eu sou o si e você é o objeto. Para você, é naturalmente o contrário: você é o si e eu sou o objeto. Neste momento estamos realizando uma permuta de si e do objeto e assim estabelecendo a “consciência de si”. Ativamente.
- Continuo não compreendendo, mas me sinto consolado.
- É o que interessa.



Hakuri Murakami

Kafka à beira mar


a quenga



A rapariga guiou Hoshino para fora dos limites do santuário e entrou num motel nas proximidades. Encheu a banheira, despiu-se primeiro num único movimento sinuoso e depois tirou as roupas do rapaz. Já na banheira, a rapariga lavou-o meticulosamente, passou a língua por todo o seu corpo e depois se dedicou à felação com apuro e arte. Muito antes de pensar em qualquer coisa, Hoshino já tinha ejaculado.

- Caramba! nunca experimentei nada tão fantástico! - comentou o rapaz afundando lentamente na água quente.
- E isso é apenas o aperitivo - disse a rapariga. - O próximo passo é muito, mas muito mais fantástico.
- Mas gostei do aperitivo, realmente.
- A que ponto?
- A ponto de não conseguir pensar nem no passado, nem no futuro.
- "O presente puro é o inapreensível avanço do passado a roer o futuro. Para falar a verdade, toda percepção já é memória."

Hoshino ergueu a cabeça, e boquiaberto, fixou o olhar no rosto da rapariga.

- Que é isso? - perguntou.
- Henri Bergson - respondeu ela lambendo um resto de sêmen na ponta do pênis. - Maéraememóra.
- Não entendi.
- Matéria e memória. Nunca leu?



Hakuri Murakami

Kafka à beira mar