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a música e a evocação do ser amado



E quando então, ao longe, lá embaixo, alguém sonha uma canção ao som de sua mandolina, não se pensa em atribuí-la a um ser humano; sente-se que ela emana diretamente desta paisagem vasta, que não pode mais calar-se diante de sua nostálgica e estranha felicidade. O instrumento canta como uma mulher solitária que em noite profunda evoca o nome de seu amante longínquo, procurando concentrar nesta palavra pobre todo o seu carinho, o seu ardor e todos os tesouros do seu mais íntimo ser.




Rainer Maria Rilke

O diário de Florença


diferentes artes e seus públicos



Esta educação artística errada distorceu todos os conceitos: espera-se que de repente o artista se torne uma espécie de tio que apresenta um divertimento dominical que apresenta aos seus sobrinhos e às suas sobrinhas (ao distinto público): sua obra. Ele pinta um quadro ou cria uma estátua com seu cinzel. Para quê? Meu Deus: para agradar a fulano e sicrano nos quais não está nem um pouco interessado, para estimular a sua digestão preguiçosa por meio desta boa idéia, e para decorar suas salas com a obra condescendente.

É assim que o público quer o artista; decorre daí este medo filisteu de tudo o que a arte pode apresentar de desagradável, de triste ou trágico, de nostálgico e ilimitado, de terrível e ameçador – aspectos que já existem em quantidade suficiente na nossa vida. Eis a razão da preferência pela alegria inocente, pelo lúdico, inofensivo, insípido, picante – pela arte, em suma, de filisteus para filisteus, que se possa usufruir como uma sesta ou uma pitada de tabaco.



Rainer Maria Rilke

O diário de Florença


nestes dias de verão



Sinto, por assim dizer, o ritmo de uma respiração mais profunda, em comparação com o qual meu respirar não passa de um saltitar infantil, e nesta fortaleza tenho a estranha sensação de liberdade e de medo, semelhante à de uma criança que carrega sobre os ombros a ar madura de um ancestral e que, ao lado da alegria que lhe infunde o brilho da sua investidura, já sente o peso doloroso da couraça que, em breve, a despojará de seu orgulho infantil e a obrigará a dobrar os joelhos trêmulos.



Rainer Maria Rilke

O diário de Florença


da força necessária ao exercício



Porque a beleza é o gesto involuntário, próprio de determinada personalidade. Ela torna-se tanto mais perfeita, quanto mais estiver livre do medo e da inquietação, quanto mais seguro estiver o artista para percorrer o caminho que conduz à sua realização mais sagrada.



Rainer Maria Rilke

O diário de Florença


da delicadeza de compartilhar o impactante




Embora Florença se estenda à minha frente de maneira tão ampla e generosa (e talvez exatamente por causa disso), ela inicialmente perturbou-me e confundiu-me de tal modo que eu mal conseguia distinguir e selecionar as minhas impressões, e acreditava estar submergindo no grande turbilhão de algo deslumbrante, para mim inédito e desconhecido. Somente agora começo a recobrar a respiração. As recordações torna-se mais claras e distinguem-se umas das outras, sinto o que ficou retido nas minhas redes e percebo que aquilo que recolhi é muito mais abundante do que eu esperava. Sei o que continua sendo minha propriedade, e quero expor peça por peça diante dos teus olhos amados, luminosos. Com toda tranqüilidade, sem te arrastar freneticamente de um lugar a outro, e sem pretender ser minucioso, haverei de mostrar-te uma coisa ou outra, dizer-te o que cada uma representa para mim, e em seguida recolherei essas coisas novamente, abrigando-as em meu repositório.



Rainer Maria Rilke

O diário de Florença



das dificuldades sublimes



Não se deixe enganar por sua solidão só porque há algo em você que deseja sair dela. Justamente este desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um territóio mais vasto. As pessoas (com o auxílio das convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda a resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos que nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la.

Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, não podem amar: precisam aprender o amor. Mas otempo do aprendizado é um longo perído de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio amor nada é do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra pessoa. (Pois o que seria a união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma opotunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe [...] a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante.



Rainer Maria Rilke

Cartas a um jovem poeta


para trás, mas perto ainda



Alegre-se com seu crescimento, para o qual não pode levar ninguém junto, e seja bondoso com aqueles que ficam para trás, seja seguro e tranqüilo diante deles, sem perturbá-los com suas dúvidas nem assustá-los com uma confiança ou alegria que eles não poderiam compreender. Procure construir com eles algum tipo de comunhão simples e fiel, que não precise ser alterada à medida em que você se modifica cada vez mais. Ame neles a vida em uma outra forma


Rainer Maria Rilke

Cartas a um Jovem Poeta