sobre tudo o que fica



apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme


Paulo Leminski

ps. o título da postagem não é o do poema.



conheça-te a ti mesmo



Acho difícil falar sobre mim mesmo. Sempre tropeço no eterno paradoxo quem sou eu? Claro, ninguém conhece tantos dados sobre mim quanto eu. Mas quando falo de mim mesmo, todo tipo de outros fatores - valores, padrões, minhas próprias limitações enquanto observador - faz de mim, o narrador, selecionar e eliminar coisas sobre mim, o narrado. Sempre me perturbou o pensamento de que não estou pintando um quadro muito objetivo de mim mesmo.

Este tipo de coisa não parece incomodar a maior parte das pessoas. Tendo oportunidade, mostram-se surpreendentemente francas quando falam de si mesmas. "Sou franco e aberto em um nível absurdo", dirão, ou "Sou muito suscetível, não sou do tipo que se move no mundo com facilidade". Ou "Sou bom em sentir o verdadeiro sentimento dos outros". Porém, muitas vezes, vi pessoas que dizem se magoar facilmente magoarem o outro sem uma razão aparente. Gente que se diz franca e aberta, sem se dar conta do que está fazendo, usa descuidadamente alguma desculpa oportunista para conseguir o que quer. E aqueles "bons em sentirem os verdadeiros sentimentos dos outros" são enganados pela bajulação mais aparente. É o bastante para me fazer perguntar: O quanto realmente nos conhecemos?




Haruki Murakami

Minha querida sputnik


sobre Ela



A Mulher Selvagem como arquétipo é uma força inimitável e inefável que traz para a humanidade um abundante repertório de idéias, imagens e particularidades. O arquétipo existe por toda a parte e, no entanto, não é visível no sentido comum da palavra. O que ser pode ser visto dele no escuro não é visível a luz do dia.



Clarissa Estés

Mulheres que correm com os lobos


o homem público nº1 (antologia)



Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.


Ana Cristina Cesar

A teus pés


tudo da mesma matéria



Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para um amor – quanta saudade... – ; aí outra esperança já vem... Mas brasinha, de tudo, é só o mesmo carvão só.



João Guimarães Rosa

Grande Sertão: Veredas


da carta de Maga a seu filho



Rocamadour, já sei que és como um espelho. Estás dormindo ou olhando os pés. Eu aqui seguro um espelho e creio que és tu. Mas não acredito nisso, escrevo-te porque não sabes ler. Se soubesses, não te escreveria ou escreveria coisas importantes. O dia chegará em que terei de escrever para recomendar que tu te comportes ou que te agasalhes. Parece incrível que alguma vez Rocamadour. Agora, somente te escrevo no espelho, de vez em quando tento secar o dedo, porque fica molhado com as lágrimas. Por que, Roucamadour? Não estou triste, tua mamãe é uma tola, queimei o borsch que tinha feito para Horacio; sabe muito bem quem é Horacio, Rocamadour, é aquele senhor que, no domingo, levou-te um coelhinho de feltro e que se aborrecia muito porque tu e eu falávamos tanto e ele queria voltar a Paris; foi então que começaste a chorar e ele mostrou como o coelhinho mexia as orelhas; nesse momento, ele ficou muito bonito, estou falando de Horacio, algum dia compreenderás, Rocamadour.



Julio Cortázar


O Jogo da amarelinha
capítulo 32


para quem sabe gozar o texto



Havia, parece, uma música do Texto. Todo o esforço consiste, ao contrário, em materializar o prazer do texto, em fazer do texto um objeto de prazer como os outros. Quer dizer: seja em aproximar o texto dos “prazeres da vida” (...) e em fazê-lo entrar no catálogo de nossas sensualidades, seja em abrir para o texto a brecha da fruição, (...) identificando então esse texto com os momentos mais puros da perversão.



Roland Barthes

O prazer do texto