da vida prática



não se enlouquece quando se tem um tanque cheio de roupa suja pra dar conta. Não é possível a gente se dar a esse luxo.



Caio Fernando Abreu

Cartas
a Maria Lídia Magliani em 10.09.91


dos ineditismos



Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida?



Milan Kundera

A insustentável leveza do ser


a dialética dos amantes




Piet Mondrian







- Acho que compreendo você - disse a Maga, acariciando-lhe o cabelo. - Você está procurando alguma coisa e não sabe o que é. Eu também. E também não sei o que é. Mas são duas coisas diferentes. Aquilo de que vocês falavam na outra noite... sim, você é mais um Mondrian e eu sou uma Vieira da Silva.

- Ah! - exclamou Oliveira - Então, eu sou um Mondrian.

- Sim, Horacio.

- Você quer dizer que sou um espírito cheio de rigor.

- Eu disse um Mondrian.

- E você não desconfiou que por trás desse Mondrian pode começar uma realidade Vieira da Silva?

- Oh, sim - respondeu a Maga. Mas você, até agora, não saiu da realidade Mondrian. Tem medo, quer estar seguro. Não sei de quê... Você é como um médico, não como um poeta.

- Deixemos os poetas de lado - disse Oliveira. - E não faça o pobre Mondrian ficar mal com a comparação.

- Mondrian é uma maravilha, mas não tem ar. Sua pintura me deixa um pouco oprimida. E quando você começa a dizer que seria necessário encontrar a unidade, então, eu vejo as coisas muito bonitas, mas mortas, flores dissecadas e coisas assim.

- Vamos ver, Lucía: você sabe bem o que é a unidade?

- O meu nome é Lucía, mas você não tem de me chamar assim - disse a Maga. - Claro que sei o que é a unidade. Você queria dizer que tudo na sua vida se junta para que possa ver tudo ao mesmo tempo, não é?

- Mais ou menos - concedeu Oliveira. - É incrível a dificuldade que você tem para captar noções abstratas. Unidade, pluralidade... Você não é capaz de sentir tudo sem recorrer a exemplos... Não, não é capaz. Enfim, vamos ver: a sua vida, por exemplo, será um unidade para você?

- Não, não creio. São pedaços, coisas que me foram acontecendo.



Julio Cortázar

O jogo da amarelinha
capítulo 19

da descontrução



Não posso esperar nunca que alguém me dê a liberdade. A liberdade tem que ser construída por nós mesmos. Como? Cada qual tem de descobrir por si só. Minha liberdade eu construo escrevendo, pintando, mantendo a minha visão simples do mundo, espreitando na selva como um animal, impedindo intromissões na minha vida privada. O essencial para o homem é a liberdade. Interior e exterior. Atrever-se a ser você mesmo em qualquer circunstância e lugar. A liberdade é como a felicidade: não chega nunca. Nunca se tem completa. É só um caminho. A gente caminha atrás da liberdade e da felicidade. E assim se vive. É só a isso que se pode aspirar. Faz alguns anos, e durante muito tempo, minha vida andou presa a sistemas, a conceitos, a preconceitos, a idéias pré-concebidas, a decisões alheias. Aquilo era autoritário e vertical demais. Não conseguia amadurecer assim. Vivia numa jaula, como um bebê que protegem e isolam para que jamais amadureça seus músculos e desenvolva seu cérebro. Tudo desmoronou diante de mim. Dentro de mim. Com muito estrondo. E fiquei à beira do suicídio. Ou da loucura. Tinha de mudar alguma coisa no meu interior. Do contrário podia acabar louco ou cadáver. E eu queria viver. Simplesmente viver. Sem pressões. Talvez com algum dia feliz. E reduzir as angústias. Isso é imprescindível: reduzir as angústias. Quem sabe seja só uma questão de mudar de ponto de vista. É preciso estar plenamente presente onde a gente se encontra, e não escapar sempre.



Pedro Juan Gutiérrez

Animal Tropical


esfinge



Sou filha da charneca erma e selvagem:
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d' oiro, p'los caminhos,
Desta minh’alma ardente são a imagem.

E ansiosa desejo — ó vã miragem -
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca, e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço da paisagem!

E à noite, à hora doce da ansiedade,
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da Saudade…

E, à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar…
Esfinge olhando, na planície enorme…


Florbela Espanca

Livro de 'Sóror Saudade'


elogio do pecado



ela é uma mulher que goza
celestial e sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.


Bruna Lombardi

O perigo do dragão


uma constatação



o amor é o fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo que elas tem de menos dizível, de menos socializável; de refratário aos papéis e imagens delas mesmas que a sociedade lhes impõe; aos pertencimentos culturais. Nós podíamos pôr quase tudo em comum exatamente porque a princípio não tínhamos quase nada. Bastava que eu consentisse em viver o que eu estava vivendo, em amar mais que tudo seu olhar, a sua voz, o seu cheiro, seus dedos afilados, o sei jeito de habitar seu corpo, para que todo o futuro se abrisse para nós.



André Gorz

Carta a D.