da extensão do sentir



E eu – como é que eu posso explicar ao senhor o poder de amor que eu ? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio.



João Guimarães Rosa

Grande Sertão: Veredas


da delicadeza de compartilhar o impactante




Embora Florença se estenda à minha frente de maneira tão ampla e generosa (e talvez exatamente por causa disso), ela inicialmente perturbou-me e confundiu-me de tal modo que eu mal conseguia distinguir e selecionar as minhas impressões, e acreditava estar submergindo no grande turbilhão de algo deslumbrante, para mim inédito e desconhecido. Somente agora começo a recobrar a respiração. As recordações torna-se mais claras e distinguem-se umas das outras, sinto o que ficou retido nas minhas redes e percebo que aquilo que recolhi é muito mais abundante do que eu esperava. Sei o que continua sendo minha propriedade, e quero expor peça por peça diante dos teus olhos amados, luminosos. Com toda tranqüilidade, sem te arrastar freneticamente de um lugar a outro, e sem pretender ser minucioso, haverei de mostrar-te uma coisa ou outra, dizer-te o que cada uma representa para mim, e em seguida recolherei essas coisas novamente, abrigando-as em meu repositório.



Rainer Maria Rilke

O diário de Florença



a sutileza (e o poder) das negativas



Quanta mulher não comeu o homem que quis, apenas porque ele não podia recusar uma mulher? Uma mulher se tranca com um homem num quarto e diz que ele vai comer ela. Ele tem que comer, a não ser que ela seja o Corcunda de Nôtre Dame. Ate mesmo recusar uma mulher obedece a normas, porque é estabelecido o direito de ela se ofender, se a recusa for fora das normas. Por exemplo, "você é feia, e eu não vou lhe comer", não se diz uma coisa dessas a uma mulher. Para não fazer uma inimiga mortal, o recusador tem que ser artista. Já a mulher pode recusar perfeitamente e mesmo nos piores termos - "você nunca, tá?" -, as mulheres sabem do que estou falando, sou uma feminista esclarecida-progressista, sou um grande homem-fêmea.



João Ubaldo Ribeiro

A casa dos budas ditosos


anterior às idéias



Por que escrevo isto? Não tenho idéias claras, sequer tenho idéias. Há trapos, impulsos, bloqueios. E tudo procura uma forma, então entra em jogo o ritmo e eu escrevo dentro desse ritmo, escrevo por ele, movido por ele e não pelo que chamam de pensamento e aque faz a prosa, a literatura ou outra coisa. Há primeiro uma situação confusa, que mal se pode definir pela palavra; é dessa penumbra que eu parto e, se aquilo que quero (se aquilo que quer dizer-se) tiver força suficiente o swing começa imediatamente, um oscilar rítmico que me traz para a superfície, que ilumina tudo, que conjuga essa matéria confusa e o que a castiga numa terceira instância, clara e como que fatal: a frase, o parágrafo, a página, o capítulo, o livro.



Julio Cotázar

O jogo da amarelinha
capítulo 82


inconstância



Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…


Flobela Espanca

Livro de 'Sóror Saudade'


da força da escolha



Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipóteses através de experimentos, de maneira que nunca saberá se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento.



Milan Kundera

A insustentável leveza do ser


Se tu viesses ver-me...



Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…


Florbela Espanca

Charneca em Flor