a escolha pelas contradições



Viver em meio a contradições é uma arte que envolve, como todas as outras, espontaneidade e astúcia de pensamento. Se for um pensamento melodramático, não levará a lugar nenhum. Para dar frutos, tem de ser uma opção deliberada, uma criação imaginativa. Mas sempre existem os que acham difícil competir com as contradições ou com uma arte que não seja continuamente simples –


Theodore Zeldin

Uma história íntima da humanidade

a ausência da sincronicidade



Todo amor tem seu instante inaugural, seu big bang particular, que é, por definição, um começo perdido, do qual os amantes, por mais perspicazes que sejam, nunca são contemporâneos. Não há amante que não seja, na verdade, herdeiro tardio de um instante de amor que nunca verá, capturado que ficou, e para sempre, no breu de sua aparição.


Alan Pauls

O passado

o olhar da perda



Quem sofre uma perda recente fica com um certo olhar que talvez seja somente reconhecível pelos que já viram aquele mesmo olhar no próprio rosto. Notei isso no meu rosto e agora percebo isso nos outros. Esse olhar reflete uma enorme vulnerabilidade, é como estar nu e desarmado. É o olhar de quem sai do consultório do oftalmologista com as pupilas dilatadas e encara a luz do dia, ou o olhar de quem usa óculos e tem subitamente que tirá-los. As pessoas que perderam alguém parecem nuas [...]


Joan Didion

O ano do pensamento mágico

Como rasurar a paisagem



a fotografia
é um tempo morto
fictício retorno à simetria

secreto desejo do poema
censura impossível
do poeta


Ana Cristina Cesar

Inéditos e dispersos

sobre os que morrem em vida



quando digo “um homem mau de verdade”, quero dizer que é uma homem que renegou tanto tudo o que poderia haver de bom dentro dele, que parecia uma cadáver, quando, porém, ainda estava vivo. Porque os maus de verdade detestam o mundo inteiro, sem dúvida. Vocês não sentem quando uma pessoa tem raiva de si mesmo? Isso leva a pessoa a se tornar morta embora esteja viva, a anestesiar os maus sentimentos mas também os bons para não sentir a náusea de ser ela mesma.


Muriel Barbery

A elegância do Ouriço
pensamento profundo nº 6

de amores, amizades, narcisismos



A amizade entre os sexos ultrapassa a absorção romântica no momento efêmero, esquecendo todo o resto, sonhando somente com a paixão. Se a paixão for a única realidade, a vida não pode ter outro significado, e todo sabem que a paixão fenece. É cada vez maior o número de indivíduos difíceis de se contentar e que não encontram um parceiros à sua feição, consumindo-se na busca de algo mais que a admiração mútua de um casal em circuito fechado. Tentando satisfazer ambições aparentemente irreconciliáveis, eles precisam de relacionamentos que não sejam tão rígidos quanto um rigor mortis.


Theodore Zeldin

Uma história íntima da humanidade

da duplicidade



El poema que no digo,
el que no merezco.
Miedo de ser dos
camino del espejo:
alguien en mi dormido
me come y me bebe


Alejandra Pizarnick

Arból de Diana
poema 14